quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

BOSTON

Os mestres das garagens em Boston eram, de longe, os Remains. Esta fabulosa banda realmente parecia estar destinada a uma carreira de êxitos – eles assinaram contrato com uma grande gravadora, excursionaram com os Beatles, se apresentaram no programa de maior audiência da televisão norteamericana (The Ed Sullivan Show) e, o melhor de tudo, tinham muito, mas muito talento. A maior parte de seu material apresenta uma forte influência britânica e, pelo fato de usarem acordes menores, pareciam ser como uma versão estadunidense dos Zombies. Uma série de conflitos que estavam além do controle dos Remains, os mantiveram longe do sucesso que eles mereciam. Entretanto, suas gravações estão disponíveis para as novas gerações, que podem comprovar que o som da banda continua tão excitante hoje quanto era na época em que foram lançadas.

Os Remains foram seguidos de perto pelos Barbarians, que gravaram a inacreditável balada “Moulty” (cuja letra fala de como o baterista maneta da banda teve que aprender a se ajustar à sociedade e de como ele desejava uma garota) e a sarcástica “Are You A Boy Or Are You A Girl” (cuja letra falava que “com esse cabelo longo, ou você é uma garota, ou você veio de Liverpool”). O Álbum dos Barbarians é irregular, mas com algumas pepitas importantes de serem garimpadas.

Assim como acontecia com os Remains, o The Lost tinha talento suficiente para ir além das fronteiras de sua terra natal, que, no caso, era New England. Eles tinham um excelente repertório, que eles apresentavam de modo desleixado, mas com garra. Willie Alexander era um dos membros dessa banda de “perdidos”, o que se constitui em uma das principais razões pelas quais os colecionadores de raridades se interessam tanto pela banda. Mas o fato é que a banda era realmente muito boa. The Lost deixou um álbum gravado pela Capitol e que se encontra engavetado até hoje, esperando para ser lançado.

The Rockin’ Ramrods eram grandes astros locais, mas seus singles eram suaves demais e não combinavam com o nome da banda. The Improper Bostonians idolatravam os Byrds, mas eles não possuíam extensão vocal adequada para copiá-los com perfeição. The Vikings era uma versão adolescente dos Rolling Stones. Teddy & The Pandas lançaram alguns bons singles de punk pop antes de lançarem um álbum bem fraco pela Tower Records e Faine Jade lançou a sua selvagemente espetacular “It Ain’t True”, antes de lançarem um álbum de folk psicodélico apenas mediano.

Outras bandas de Boston absolutamente essenciais e que não podem ficar de fora de qualquer coleção que se preze são The Whatt Four, The Rouges, The New Breeds, The Ones e The Rising Storm, cujo álbum Calm Before é considerado um dos mais refinados álbuns de prep school punk. Esse subgênero do rock de garagem sessentista tem como característica as releituras em estilo punk dos sucessos do momento. The Rising Storm era bem melhor em sua faceta folk punk. Quando eles tocavam blues, pareciam um pouco deslocados.

Mas o que parece ser a melhor gravação punk já feita em Boston é o incrível compacto de vinil de sete polegadas apresentando as canções “Till The Stroke Of Dawn” e “See The Girl”, lançado por uma obscura banda chamada The Psychopaths. Há bem pouca informação a respeito desta banda, razão que a torna um dos itens mais desejados por colecionadores. A voz do vocalista parece estar à beira de explodir. Não se sabe se há mais material gravado por essa banda.

NOVA IORQUE

O natural seria dizer que Nova Iorque teve uma cena punk tão excitante quanto as de Los Angeles e do Texas, mas a verdade é que isso estava longe de ser um fato. Havia poucos grupos sólidos, mas a cidade era uma miscelânea de vários gêneros. Havia provavelmente mais blues autêntico de Chicago (Paul Butterfield), psicodelia de primeira linha (Lottar & Hand People) e folk rock (Lovin’ Spoonful e Youngbloods) do que propriamente punk adolescente. Entretanto, há alguns grupos que merecem ser mencionados.

Os reis do punk na cidade de Nova Iorque eram os Blues Magoos. Reparando na sua ambientação visual inspirada em gibis, no fato dos membros da banda compartilharem o sobrenome Magoo e a falta de apoio da crítica local, é inevitável não se lembrar dos Ramones. Mas, ao contrário dos Ramones, os Blues Magoos conseguiram emplacar pelo menos dois excelentes sucessos nas paradas norteamericanas, “Pipedream” e “We Ain’t Got Nothing Yet”. Eles também lançaram três álbuns indispensáveis, Psychedelic Lollipop, Electric Comic Book e Basic, que são repletos de canções bem escritas, guitarras saturadas de fuzz, dedilhados de órgão Vox e letras fora de órbita. Musicalmente, os Blues Magoos soavam como uma rua de tráfego intenso na hora do rush, com a guitarra e o órgão criando um caos total. Os Blues Magoos eram bastante divertidos, e tinham crédito para usarem efeitos sonoros dentro do contexto punk, assim como também tinham talento e material para fazerem três álbuns clássicos. Os Blues Magoos eram, simplesmente, os maiores.

A banda The Magicians costumeiramente tocava no legendário clube Night Owl e era contratada da Columbia, ainda que o seu som polido não impressionasse muito os consumidores de discos de vinil. Os Vagrants eram contratados da Atco e o seu som soava como um Young Rascals mais cru (outra banda bastante popular da região), mas eles não conseguiram muita popularidade além dos limites dos clubes de Long Island. Dois grupos que mostravam grande potencial punk eram The Shapes Of Things com uma maravilhosa versão de “So Mystifying” e The Groupies, cuja “Primitive” configura-se em uma gravação que todo fã de rock de garagem deveria possuir. Na coletânea Nuggets, Lenny Kaye incluiu o Blues Project dentro do cenário punk. Era uma grande banda, liderada por Al Kooper, e seu álbum Projections é excelente e merece a atenção de qualquer colecionador.

Assim como o Blues Project, há outra banda formada por músicos “sérios” que, embora não fosse puramente uma banda punk adolescente, foi uma das bandas mais influentes para os grupos punks (especialmente os que surgiram a partir de 1976). Trata-se do Velvet Underground. A simplicidade de suas canções, o tom depressivo de suas letras e de sua postura, e a rusticidade de sua música foram tão importantes naquela época quanto hoje, tanto tempo depois. Fazendo um cruzamento sonoro entre bizarrice punk acelerada, pop e barulhos experimentais, eles sempre deixaram a sua personalidade impressa, voando à parte das novidades do movimento hippie. Lou Reed e John Cale começaram suas carreiras musicais tocando em diversas bandas de garagem (Primitives, Beechnut e Roughnecks, só para citar algumas) e, eventualmente, se uniram a pessoas como Mo Tucker para formarem o Velvet. Sua ligação com o Exploding Plastic Inevitable e sua conexão com o cenário artístico liderado por Andy Warhol eram os empurrões que eles precisavam para fazer o seu casamento com o seu destino. Sem dúvida alguma, pela qualidade de sua música e pela sua influência, The Velvet Underground foi a banda mais importante a emergir de Nova Iorque nesse período.

É claro que não apenas a cidade, mas também o estado de Nova Iorque tinha maravilhosos combos punks. As cidades pequenas do interior do estado estavam estufadas de excelentes bandas, como The Invictus (um LP roqueiro e vários singles), The Young Tyrants, The Heathens e The Huns. Os arredores de Nova Jérsei presentearam os fãs de rock de garagem com a banda Richard & The Young Lions, cuja “Open Up Your Door” é um clássico e os Knickerbockers lançaram a melhor canção no “estilo Beatles” já composta por uma banda norteamericana, a incrível “Lies”, que alcançou um razoável êxito comercial. Connecticut também tinha uma vibrante cena, liderada por The Shags, que lançaram vários e potentes singles. Há rumores de que existe um álbum inteiro gravado pelos Shags nos Anos 1960 e que ainda não foi lançado. Se for verdade, é imperativo que tal álbum venha à luz, pois canções como “Hide Away” são extremamente excitantes. Duas outras bandas de Nova Jérsei estreitamente conectadas com a cena de Nova Iorque eram The Myddle Class, que lançou gravações profissionais mas punks acima de tudo e The Balloon Farm, cuja “A Question Of Temperature” é um belo exemplo de perfeição em termos de psicodelia punk.

PENNSYLVANIA

Enquanto na cena da Filadélfia não havia muita coisa de interessante acontecendo, os subúrbios vizinhos tinham o seu quinhão de boas bandas de garagem. The Kings Ransom, de Allentown, lançaram vários singles de boa qualidade, e um deles, “Shame”, era um número garageiro que lembrava bastante o som do Music Machine. Outras excelentes canções garageiras saídas dessa região foram “Yesterday’s Hero”, dos Satyrs, “I Found A New Love”, de Ognir & The Nite People, “Cry”, dos Shillings, e “Set Me Free”, dos Outcasts. Havia outras gemas menores de grupos como The Bats, Bucaneers, TR5 e The Monkeymen. Este último era de South Jersey, onde eles se acostumaram a vencer diversas batalhas de bandas. The Kit Kats alcançaram muito sucesso, pois a sua “Let’s Get Lost On A Country Road” se tornou um enorme hit local. Tal canção, apesar d muito boa, pode ser considerada mais pop do que punk.

O filho favorito da Filadélfia, Todd Rundgren, liderou uma banda semipunk, The Nazz. Essa banda era bastante influenciada por Beatles e The Who e seus músicos usavam roupas extravagantes. “Open My Eyes” era um bom número de pop punk, com uma esfuziante guitarra com fuzz. Cada um dos seus três álbuns possui muita qualidade, mas, na maior parte do tempo, o Nazz era mais power pop do que punk.

A cidade de Pittsburgh tinha como o seu mais insano grupo punk os Swamp Rats. Sua versão de “Hey Joe” é uma deliciosa mistura de distorção, arrogância e frustração. Seus outros singles também são impressionantes. The Swamp Rats era provavelmente o melhor que a Pennsylvania poderia oferecer.

SUL


Esta era uma região também muito ativa, mas os melhores grupos faziam um som mais colegial. Isso é bem exemplificado em bandas como The Swinging Medallions (cuja “Double Shot Of My Baby’s Love” foi um dos maiores sucessos de 1966) e Phil & The Nightshadows. O rock colegial parecia receber mais atenção, embora a banda The Cants, originária de Mississipi, tenha lançado três álbuns com versões arrasadoras de “Hungry”, “Rain” e “Gloria”. The Gentrys, de Memphis, alcançaram certo êxito com a clássica “Keep On Dancing”; The Uniques, de Louisiana, também foram bem sucedidos com o single “Not Too Long Ago”; e The Hombres também sentiram o gosto do sucesso com a quase inacreditável “Let It Out (Let It All Hang Out)”, uma tentativa de navegar nas mesmas praias de Bob Dylan. Se os Box Tops (banda de Alex Chilton) não tivessem suavizado o seu som com arranjos super produzidos, eles provavelmente teriam feito um som punk matador. Mas isso é pura adivinhação.

FLÓRIDA



Algumas bandas importantes de serem mencionadas aqui são Magi, Birdwatchers, Split Ends, Nightcrawlers (cuja “Little Black Egg” foi um sucesso em escala menor) e We The People. Esta última é, provavelmente, a banda mais importante. Eles começaram como uma banda punk básica e evoluíram em direção a um som psicodélico muito interessante, tendo gravado uma variedade de singles nos mais diversos selos. Há uma excelente coletânea dessa banda intitulada Mirror Of Our Minds e que merece ser adquirida.

Grupos como We The People, que começaram a navegar por mares mais lisérgicos, conseguiram uma certa longevidade, lançando gravações com inclinações hippie. O Bubblegum foi uma criação de estúdio, ainda que canções como “Beg, Borrow And Steal”, na versão de Mouse & The Traps, estivessem baseadas em fortes tradições punks, o que permitiu que o rock de garagem respirasse um pouco mais. Portanto, mesmo com o predomínio dos hippies, ainda havia algum material que mantinha o espírito punk bem vivo.

Um pouco mais tarde, no começo da década de 1970, os esforços de MC5, Flamin’ Groovies e Stooges mantiveram viva a chama do punk, e provaram ser tão importantes quanto a iniciativa de Lenny Kaye, de relançar os clássicos das garagens sessentistas na coletânea Nuggets. Desde que essa coletânea havia saído, as pessoas perceberam que não precisavam do corte de cabelo da moda, sapatos de salto plataforma e um muro construído com amplificadores Marshall para se fazer rock’n’roll. Isso abriu as portas e permitiu que bandas como New York Dolls, Ramones, DMZ, Dead Boys e tantos outros entrassem.