quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A HISTÓRIA CONDENSADA DO PUNK SESSENTISTA


Quem inaugurou o Movimento Punk? Não se sabe se há uma resposta para essa inquietante questão. Um grupo como os Wailers já vinha alcançando um certo sucesso em 1959, e os Standells já estavam por perto, fazendo gravações, já no começo dos Anos 1960. Provavelmente o maior punk de todos os tempos seja Jerry Lee Lewis, que, até hoje, continua sendo um dos mais celebrados “bad boys” do rock and roll. Ainda que essas primeiras manifestações não constituíssem parte de uma cena consistente, elas simplesmente provam que um roqueiro de verdade é, no fundo da alma, um punk. O cenário punk em si não tomaria forma até que os Beatles, os Stones, os Animals, os Kinks e milhões de outros invadissem as praias estadunidenses. Depois da Invasão Britânica, cada cidade possuía dúzias de bandas de garagem. Havia cidades com apenas alguns poucos milhares de habitantes, mas que, mesmo assim, tinham pelo menos umas cinco ou seis bandas formadas por adolescentes explodindo de hormônios. Era assim em todos os lugares.

O punk de garagem norteamericano sobreviveu durante vários anos, mas o seu principal período de sucesso pode ser considerado o ano de 1966. Gravações rústicas encontravam abrigo em incontáveis estações de rádio e um grande número de singles lançados em compactos simples de 7 polegadas entravam para o Top Ten dos Estados Unidos. Era uma experiência emocionante ligar o rádio (apenas estações AM) e ouvir “Wooly Bully” (Sam ‘The Sham’ & The Pharaohs), “Dirty Water” (The Standells) ou “We Ain’t Got Nothin’ Yet” (Blues Magoos). O mercado musical jovem era efervescente e as estações de rádio, ao contrário do que acontece hoje em dia, conheciam os seus ouvintes e rapidamente capitalizaram em cima da onda.

Embora 1966 tenha sido um ano estelar, o punk de garagem estava destinado a ser destruído. E não foi apenas um único fator que o matou, mas um conjunto de fatores. Como era de se esperar, as grandes gravadoras ajudaram a ruir com a edificação do rock de garagem. Essas grandes corporações assinaram contratos com bandas que, antes, eram cruas e rústicas, mas, sob os auspícios dos magnatas da indústria, foram obrigadas a gravar baladas suaves, colocar seções de cordas em suas gravações, e, em muitos casos, eram convencidas a se retirar dos locais de gravação para que músicos de estúdio gravassem as partes instrumentais, deixando para os caras das bandas apenas o trabalho de colocar a voz sobre as bases pré-gravadas. Poucos grupos, como o American Breed, alcançavam o sucesso, mas aquela sonoridade punk já não era reproduzida da mesma forma. É bem triste saber como algumas bandas maravilhosas encerraram atividades.

Outra coisa que antecipou o fim dessas bandas foi o fenômeno da crítica musical de orientação roqueira. Jornalistas como os das revistas Crawdaddy e especialmente Rolling Stone classificavam o punk de garagem como uma praga. “Os músicos do Jefferson Airplane eram artistas sérios, mas os Electric Prunes eram uma brincadeira de mau gosto. Portanto, esses últimos jamais teriam espaço em nossas páginas”. Esse tipo de lógica fedia. Essas duas revistas foram a espinha dorsal do Movimento Hippie que estava se espalhando através de todo o país e a ascensão desse movimento deixou para trás os grupos punks que não conseguiram se adaptar à nova tendência e os grupos punks que até tentaram mudar mas soaram tão estúpidos que isso acabou ferindo sua própria causa. Todos estavam tão ávidos por conseguirem mais espaço nas paradas de sucesso que nunca passou pelas suas cabeças que eles poderiam continuar sobrevivendo através do culto que os seus seguidores promoviam. O último prego fincado no caixão do punk de garagem foi a falência das boas estações de rádio AM de rock and roll. As estações FM estavam começando a ditar as regras e o formato AM não mais se tornaria tão comum. Havia espaço suficiente para as grandes gravadoras continuarem a lançar seus sucessos, mas os pequenos selos independentes (os verdadeiros responsáveis pelo lançamento e popularização das bandas punks de garagem) foram todos à falência. Foi bom enquanto durou.

GRAVADORAS INDEPENDENTES


Justamente como acontece hoje em dia, as grandes gravadoras eram cautelosas ao darem chances de gravação para muitos artistas iniciantes nos Anos 1960. Por isso, ficou a cargo das corajosas gravadoras independentes a tarefa de lançar as sementes fonográficas do punk de garagem sessentista. Pequenos empresários, procurando pelos seus próprios “Beatles”, assinaram contratos e gravaram com bandas que acabaram se revelando verdadeiras minas de ouro, ao passo em que alcançavam facilmente o sucesso regional. Um exemplo disso é que, nos últimos meses de 1966, na cidade de Cleveland, uma banda chamada The Choir ultrapassou os Beatles nas paradas de sucesso com o delicioso Merseybeat “It’s Cold Outside”. Ou seja, não foi um sucesso nacional, mas foi um grande sucesso localizado em uma determinada cidade. E foi assim em todo o país. Mesmo que a gravação não alcançasse o tão sonhado sucesso de nível nacional, a repercussão regional já era suficiente para garantir o lucro dos pequenos selos que, com isso, se multiplicavam. Alguns poucos selos independentes, como o Original Sound (com a Music Machine), o GNP Crescendo (com os Seeds), o Dunwich (com os Shadows of Knight) e o Cameo Parkway (com ? & The Mysteryans) foram razoavelmente sortudos em alcançar as paradas nacionais de sucesso.

As gravadoras independentes dos Anos 1960 enfrentavam os mesmos problemas que suas similares enfrentam hoje. Os pagamentos dos distribuidores regionais eram sempre atrasados e, na maioria dos casos, elas se sentiam com sorte de receber algum dinheiro. Uma pequena gravadora poderia ter uma gravação que faria um grande sucesso e não receber dinheiro algum por isso. Com um orçamento limitadíssimo, os problemas cresciam. Se uma banda já encontrava problemas em promover a sua canção candidata ao sucesso, imagine se não encontraria problemas em promover a carreira toda por essa eventual gravadora com pouco dinheiro em caixa. A conseqüência disso é que os Anos 1960 é repleto de bandas que emplacavam um grande sucesso e, tão rápido quanto surgiam, desapareciam de cena.

Mas, embora as gravadoras independentes tenham sido o pilar fundador do punk de garagem, as grandes gravadoras também contribuíram enormemente. Havia uma plenitude de refinados sucessos. Por exemplo, Paul Revere & The Raiders emplacaram uma fileira de clássicos como “Steppin’ Out”, “Just Like Me”, “Hungry” e “Kicks” antes da gravadora Columbia transforma-los em marionetes e fazer de Mark Lindsay um ídolo adolescente ao invés de um ídolo punk. A gravadora Mercury tinha os fantásticos Blues Magoos, cuja visão do punk psicodélico só está começando a ser reconhecida recentemente por historiadores e aficionados como uma das mais refinadas daquele período.

Ainda assim, as majors eram costumeiramente tapadas. Os Remains saíram em turnê com os Beatles, e, em várias ocasiões, as suas apresentações superavam em energia e magnetismo as próprias apresentações dos quatro rapazes de Liverpool. Mesmo com isso, a gravadora Capitol não lançou o álbum de Barry Trashian e seus parceiros a tempo de capitalizar em cima dessa publicidade. Outra escorregada da Capitol: Faturando alto com a trinca Beatles/Beach Boys/Peter & Gordon, os executivos dessa gravadora relegaram a banda The Lost (originária de Boston, como os Remains) ao segundo plano. A Capitol lançou apenas dois singles dessa banda e deixou-os de lado. Há rumores de que há um álbum do The Lost gravado nessa época e engavetado até hoje, apenas esperando por uma edição digital. Entusiastas do punk rock sessentista esperam ansiosos por esse lançamento.

Há uma infinidade de outras histórias. Nada mudou, à medida que as gravadoras independentes trabalham duro para construir um artista apenas para vê-los devorados pelo monstro corporativo, que os faz rastejar para terem algum espaço.

MÍDIA

Antes da Rolling Stone e da Crawdaddy, não havia aquilo que podemos classificar como publicação direcionada ao rock. A única exposição em nível nacional que um artista poderia ambicionar era aparecer em revistas de orientação adolescente geralmente consumidas por garotinhas. Raramente poderia se falar sobre influências musicais, equipamentos, técnicas de gravação e coisas desse tipo. Ao invés disso, poderíamos aprender coisas como a cor favorita de Ronnie Magoo ou de como Jim Sohns gostava de se portar em um encontro. Até que são coisas simpáticas, mas esses caras não eram os tolinhos que essas revistas queriam fazer com que eles se parecessem.

Mas até que isso não era tão mau assim. Ainda havia um par de explosivas publicações locais. O The Beat, da KRLA, era o melhor lugar para se ler algo sobre a cena punk de Los Angeles. A estação logo publicaria edições em outras cidades. A lista musical de “sucessos” podia não ser a mais acurada – com incontáveis gravações punks entrando para o Top 40, mas isso era decididamente divertido, aí é que estava a graça do negócio. Se a The Beat falhava no quesito força crítica, pelo menos capturou o espírito da época de forma divertida. Em Boston, havia a New England Teen Scene, uma publicação que trazia grandes entrevistas pouco conhecidas como as que foram feitas com The Rockin’ Ramrods, The Lost, Flat Earth Society, e The Ones. A empresa de equipamentos Vox publicava um jornal/catálogo que não apenas promovia os seus instrumentos como também os grupos que os usava. Poderia não ser muita coisa, mas, tendo em conta de que todos, desde Beatles/Rolling Stones até Chocolate Watch Band/Seeds usavam instrumentos da marca Vox, havia, sim, muitas histórias interessantes para serem lidas.

A Hit Parader era a melhor revista de nível nacional dedicada ao punk de garagem, mas até mesmo essa publicação não entendia muito bem o que estava acontecendo. Seus corações e suas mentes estavam mais centrados na cena R&B inglesa e no folk-rock norteamericano (eles adoravam o Lovin’ Spoonful e a Jim Kweskin Jug Band). Uma banda que eles apoiavam era os Blues Magoos, mas eles desprezavam ? & The Mysteryans e The Count Five. Apesar disso, a Hit Parader foi uma grande publicação dos Anos 1960.

O rádio era realmente muito legal. As estações não estavam programadas para agir dentro de certas regras nebulosas, como aconteceria mais tarde. Os DJs, nessa época, eram livres para tocar o tipo de música no qual eles realmente acreditavam, sem coerção financeira nem imposições de gravadoras. Isso resultou em incontáveis sucessos regionais dos quais ninguém havia ouvido falar antes. Por exemplo, um sucesso como “Open Up Your Door”, da banda Richard & The Young Lions, poderia estar recebendo uma massiva execução radiofônica na região de North Jersey/Nova Iorque, mas poderia não ter tocado nenhuma vez nas rádios de uma região como a de Philly, por exemplo. Os DJs pareciam saber muito bem o que estavam fazendo, pareciam conhecer muito sobre o tipo de música que eles estavam tocando, o que tornava as coisas bem melhores. Encorajadas pelo sucesso regional, as estações de rádio AM eram os motivos primordiais pelo que podemos classificar como o período mais criativo do rock estadunidense. Quando a cena punk perdeu esse apoio, então tudo acabou, aquilo tudo encontrou o seu fim.

Mas a televisão também foi muito importante para o rock de garagem. Muito antes de qualquer pessoa sequer pensar em algo semelhante à MTV, os punks já haviam encontrado exposição nacional na telinha. Poucos dos punks pioneiros apareceram no Shindig e no Hullaballoo (dois programas que a MTV deveria ter a decência de reprisar). Depois disso, o apresentador Dick Clark tinha os seus dois campeões de audiência, American Bandstand (para os sucessos massivos de nível nacional) e o antológico Where The Action Is (que contava com Paul Revere & The Raiders como banda residente). Este último trazia inesquecíveis performances dos melhores roqueiros dos Anos 1960 – punks, bandas britânicas, folk-rock, soul etc. Era um programa verdadeiramente extraordinário. Mais tarde, Dick Clark daria a Paul Revere & The Raiders um programa de TV exclusivo, o Happening ’68, mas, apesar de algumas performances brilhantes e da transmissão de algumas “Battle Of The Bands”, o tempo foi passando e o programa foi aos poucos saindo do ar. Dick Clark possui a íntegra de todos os episódios de todos esses programas e já foi sondado para torna-los acessíveis via TV a cabo, VHS ou DVD. É um crime que todo esse acervo esteja encostado em alguma prateleira empoeirada.

Havia também um programa de TV baseado em Cleveland chamado Upbeat. Esse programa era um sonho dos entusiastas do rock de garagem que se tornava realidade, pois todas as melhores bandas se apresentaram aí. Muitos se lembram de apresentações de Shadows Of Knight, Magicians e The Choir. O programa era apresentado por Don Webster e não só os saudosistas adorariam rever tal programa.

Todas as cidades tinham os seus programas musicais televisivos locais, que, usualmente, apresentavam grandes nomes do cenário artístico nacional, assim como sucessos regionais. Alguns como Lloyd Thaxton’s, Jerry Blavat’s, Hy Hit’s e Clay Cole’s tiveram breve ligação com o sindicato.

Os filmes também usavam as bandas de garagem nas cenas de festa. Algumas das muitas bandas que podem ser vistas durante apresentações noturnas praianas são The Leaves, Beau Brummels, Standells, Seeds, Chocolate Watch Band, Barbarians etc. Imperdível também é o legendário filme Riot On Sunset Strip, que era baseado no Movimento Punk de Sunset Strip. The T.A.M.I. Show Movie (Teen Age Music Incorporated) também é outro grande filme.

O CENÁRIO DAS TURNÊS E DOS CLUBES

Este foi particularmente um estágio seminal do rock. Portanto, não se encontra bem organizado. Muitos grupos tinham seus singles nas paradas, ainda que continuassem fazendo apresentações em ginásios de escolas secundárias e em feiras no interior do país. Outros abriam as apresentações de bandas mais conhecidas e de maior sucesso. Quando grupos como os Byrds, os Stones ou Paul Revere & The Raiders saíam em turnês, eles usavam grupos punks locais como The Lost, Zakary Thaks ou The Remains para abrirem seus shows. Dick Clark tinha as suas turnês intituladas “Caravana das Estrelas”, que apresentava grandes bandas punks como Don & The Goodtimes, The Robbs, The Hardtimes e os próprios Raiders.

Havia clubes para adolescentes, bem como casas noturnas para o pessoal mais velho. Conforme cada banda consagrada tocava em lugares como o Whiskey A Go Go, o Cyro’s (lar dos Byrds e dos Leaves) e It’s Boss, podiam ver por que Los Angeles apresentava uma cena tão ativa. Boston tinha o Tea Party e The Rat e Nova Iorque tinha o Cafe Au Go Go e o The Night Owl. Cada cidade parecia possuir pelo menos um clube de renome para apresentar shows de grandes bandas (e outras nem tão grandes assim).

Para as bandas que não conseguiam alcançar as paradas nacionais de sucesso ou mesmo as regionais, havia as competições denominadas de “Batalhas das Bandas”. Aí, os grupos formados por jovens competiam entre si para ver quem possuía uma apresentação que empolgava mais o público. O prêmio era normalmente a assinatura de um contrato com alguma gravadora independente. Adolescentes se acotovelavam em recintos apertados para ver uma dúzia ou mais de bandas que aspiravam ser os novos Rolling Stones do pedaço. Muitas dessas apresentações foram gravadas e essas gravações acabaram inevitavelmente se tornando alguns dos mais procurados itens de colecionador de artefatos garageiros dos sixties. Quem ouve essas gravações certamente concorda que a maioria dessas bandas era bem ruim. Ainda assim, pode-se perceber um vívido entusiasmo em sua música. E isso era muito importante para esses jovens. Por um dia ou dois, esses garotos poderiam sonhar que eram astros do rock, o que era um grande jeito de escapar da dura realidade de tarefas e provas escolares nas salas de aula.

MODA

A moda era tão importante quanto a música no contexto da psicodelia sessentista. Para garotos, isso significava deixar o cabelo crescer no estilo “cogumelo”. O rolling stone Brian Jones foi considerado o melhor estilo de cabelo. Portanto, aquele que chegava mais perto do estilo dele era considerado muito popular. Entre os punks norteamericanos, Joe Kelley, baixista dos Shadows Of Knight, e também todos os integrantes dos Blue Magoos, tinham excelentes estilos de cabelo. Era quase impossível ver seus olhos. Aqueles que não tinham cabelos longos deixavam que o cabelo crescesse até o queixo e penteavam para os lados, permitindo que o mesmo caísse na própria face, conforme tocavam o seu instrumento. Mais tarde, conforme o estilo mudava de punks para hippies, os caras começaram a repartir o cabelo no meio e deixar que crescessem até os ombros. Mas essa é uma outra história.

As garotas não tinham um papel ativo na cena garage punk. As bandas eram 100% formadas por homens. Entretanto, as platéias eram quase sempre compostas por mulheres, em sua maioria. Uma porção de rapazes se sentia ofendida pelos cortes de cabelo e pelas vestimentas que os músicos ostentavam, mas as garotas adoravam, pois fazia lembrar os seus ídolos britânicos. Portanto, as garotas que seguiam a cena tentavam agradar as bandas, trabalhando duro para se vestirem como garotas inglesas, ou “pássaros”, como elas eram então chamadas. O cabelo era usado longo e liso. Se uma garota tivesse cabelo naturalmente cacheado, tratava logo de alisá-lo com ferro quente. Instruções para essa complicada operação podiam ser encontradas em revistas dedicadas a adolescentes.

As roupas eram usadas o mais curtas possível (pelo menos o mais curta quanto as escolas pudessem permitir) e as botas eram as mais bonitas do momento. Opcionais, mas não menos importantes, estavam os cintos com fivelas grandes e os chapéus “mod”. Se alguém dissesse a uma garota que ela se parecia com Marianne Faithfull, ela se sentia satisfeita por estar na moda. O visual de Marianne era o visual perseguido pela maioria das meninas. Além dos já citados tipos de cabelos, os garotos costumavam também usar calças de veludo ou caneladas, a não ser que quisessem parecer realmente sinistros – nesse caso, usavam calças jeans pretas. As camisas eram intensamente coloridas (com listras, bolinhas ou paisley) e, algumas vezes, mangas largas. A exemplo das garotas, os garotos também usavam cintos com fivelas grandes e capas de corduroy. Para os pés, havia as botas dos Beatles (importadas da Inglaterra), com salto alto e bicos pontudos.

Os instrumentos musicais eram parte essencial do visual. Como já foi dito, muitos grupos usavam instrumentos da Vox. Portanto essa era a marca mais freqüentemente lembrada quando se falava em bandas de garagem. Os instrumentos da Vox não tinham necessariamente o melhor som e não eram necessariamente os mais fáceis de serem tocados (o manejo dos braços da guitarra e do baixo eram horríveis), mas eles eram, disparado, os de visual mais incrementado. É importante lembrar que a imagem era um fator importante. Outras guitarras bastante populares eram a Rickenbacker (especialmente a de 12 cordas, usada pelas bandas de folk-rock), a Fender (Stratocaster, Telecaster e Jaguar) e a Silverstone da Sears. Para os órgãos compactos, as marcas eram Vox (Jaguar e Continental) ou Farfisa. Os amplificadores eram Fender (Twin Reverb, Super Reverb e Bandmaster) ou Vox (Super Beatle e Buckingham).

PACÍFICO NOROESTE

É bem possível que as primeiras manifestações do punk tenham vindo dessa região dos Estados Unidos. Ao invés de “batalhar” contra os Beatles, no final da década de 1950, fortes e rústicos grupos instrumentais como os Wailers (“Tall Cool One”) estavam providenciando uma alternativa contra o pop que parecia estar lentamente tomando o lugar do rock. Bandas tocando ao vivo dominaram essa região e as festas dançantes ficavam lotadas, com pessoas loucas para ver as apresentações dessas bandas.

Na época em que o som punk se alastrou pelos Estados Unidos, o Noroeste estava apinhado de músicos veteranos que estavam prontos para combater a Invasão Britânica. Grupos noroestinos como Sonics, Wailers, Paul Revere & The Raiders e Don & The Goodtimes eram os melhores, já que eles guardavam mais similaridade com britânicos como Kinks, Yardbirds e Pretty Things.

Os Sonics (de Tacoma, Washington) eram liderados por um cara muito doido chamado Gerry Roslie. Eles gravaram vários álbuns, e, com clássicos como “Psycho”, “The Witch”, “Strychnine” e “Boss Hoss” eles se estabeleceram como uma influência que atravessou gerações (Vide The Cramps). Roslie era um vocalista seguro, que dava o melhor de si em seus berros, e tinha uma banda “selvagem” o suficiente para acompanhar seus gritos. Eles simplesmente detonavam. A música dos Sonics pode não ser “bonitinha”, mas é absolutamente essencial.

Os Wailers, também originários de Tacoma, tiveram o seu grande sucesso, “Tall Cool One”, em 1959, mas eles se ajustaram à Revolução Punk de maneira satisfatória, gravando uma série de fortes álbuns. Três de seus petardos punks foram gravados pelo selo Etiquette: “Dirty Robber”, “Bama Lama Loo” e “Out Of Our Tree”. Mesmo não sendo tão despirocados quanto os Sonics, os Wailers tinham muito o que oferecer e não tinham nada a ver com Bob Marley.

Os Kingsmen, de Portland, são frequentemente lembrados por serem os donos da versão mais popular da canção punk mais gravada pelas bandas de garagem, o clássico “Louie Louie”. Este simples exercício de três acordes de arrogância sexual era tudo o que a cena punk procurava. Essa pequena canção chegou a ser até objeto de investigação do FBI por obscenidade e foi banida de uma série de estações de rádio. Mas os adolescentes compraram o compacto dos Kingsmen, apesar dos conselhos de seus pais, e “Louie Louie” acabou se tornando um grande sucesso. Embora outras bandas tenham gravado boas versões desse clássico do R&B de autoria de Richard Berry, os Kingsmen fizeram mais sucesso comercial (antes do Black Flag tê-la gravado). Os Kingsmen gravaram várias faixas matadoras como “Night Train”, “That’s Cool That’s Trash”, “The Jolly Green Giant” e “The Climb”. Uma boa pedida é o disco A Quarter To Three onde a banda detona clássicos da garagem como "Satisfaction”, “Hang On Sloopy” e “Poison Ivy”.

Entretanto, embora isso possa causar alguma polêmica, a melhor banda do Noroeste dos States nos Anos 1960 foi mesmo Paul Revere & The Raiders. Embora eles tenham experimentado o seu período de maior sucesso quando eram contratados da Columbia, seus singles e álbuns do começo da carreira continuam sendo verdadeiros clássicos do rock. Os melhores momentos da banda começaram quando Paul Revere convenceu seu jovem saxofonista Mark Lindsay a largar seu instrumento de lado e começar a cantar. Durante vários anos não havia páreo para eles, e “Steppin’ Out”, “Just Like Me”, “Hungry”, “Great Airplane Strike”, “Ups And Downs” e “Kicks” se tornaram grandes sucessos punks. Então, algo estranho aconteceu. Um a um, os membros começaram a abandonar a banda e a Columbia trocou o nome do grupo para Paul Revere & The Raiders With Mark Lindsay. Nos tempos iniciais, ele era a voz dos punks, mas então, em sua empreitada solo, passou a habitar as fantasias de garotinhas adolescentes. A música foi se tornando mais tola a cada lançamento, e então esse grande grupo punk acabou se tornando tão relevante quanto Jay & The Americans. Podemos dizer que um dos maiores crimes musicais cometidos durante a Primeira Era Psicodélica foi esse lento e doloroso declínio de Paul Revere & The Raiders.

ÁREA DA BAÍA DE SAN FRANCISCO

O Norte da California também tinha uma cena punk bastante ativa. Talvez não tivesse tantas bandas quanto Los Angeles, mas as gravações feitas nessa região eram de alta qualidade. Em termos comerciais, a banda mais bem sucedida dessa área foi The Beau Brummels (numa era pré-flower power, antecedendo bandas como Jefferson Airplane, Grateful Dead, Moby Grape e Country Joe & The Fish). Gravando pelo selo local Autumn (que lançou uma excelente compilação punk chamada San Francisco Roots que apresenta os Brummels ao lado de outros clássicos locais como The Vejtables, Great Society etc.), eles experimentaram vários sucessos; “Laugh Laugh”, “Just A Little” e “Don’t Talk To Strangers”. O som da banda era um híbrido entre Merseybeat, folk-rock e pop simples, que realçava os vocais únicos de Sal Valentino. Uma coletânea lançada recentemente chamada From The Vaults (Rhino), mostra que os Beau Brummels também eram capazes de mostrar a sua faceta mais roqueira, mas, durante o reinado da banda, a decisão foi por deixar em evidência a maestria em criar canções pop perfeitas.

Colecionadores mais radicais provavelmente dirão que o melhor do som punk que surgiu dessa área emergiu da cidade de San Jose, onde a Chocolate Watch Band reinava absoluta. A banda era considerada uma das melhores cópias dos Rolling Stones produzidas nos Estados Unidos. Não há como negar tal afirmação quando ouvimos canções como “Let’s Talk About Girls”, “Sweet Young Thing” e "Sitting There Standing”. Havia também ótimos números de folk-rock, como “Baby Blue”, por exemplo. Mas os seus álbuns podem ser considerados apenas quase perfeitos, pois eles insistiam nas longas e deslocadas jams psicodélicas. A coletânea The Best Of Chocolate Watch Band (Rhino) é um bom aperitivo para quem não conhece nada da banda e quer saber por que ela é uma das preferidas dos colecionadores de gravações punks sessentistas. Para quem quiser se aprofundar mais no som da banda, a pedida são os dois primeiros LPs do grupo, No Way Out e Inner Mystique (o terceiro LP, One Step Beyond, não é muito bom, e apresenta uma banda totalmente descaracterizada, com um som muito pesado). Os singles lançados em compactos e que não saíram em nenhum LP também são essenciais.

San Jose merece a fama de ter produzido excelentes bandas. Combos punks matadores mantinham a boa fama da cidade. The E-Types alcançaram um grande sucesso local com canções punks como “I Can’t Do It”, “Big City” e a fabulosa “Put The Clock Back On The Wall”, mas eles não puderam espalhar a sua magia para além das fronteiras de San Jose. O mesmo pode ser dito sobre William Penn, que lançou excelentes gravações no mercado interno, incluindo “Blow My Mind”. The Mourning Reign lançaram dois petardos garageiros de altíssima qualidade, “Satisfaction Guaranteed” e “Evil Hearted You”. Os Brogues são mais lembrados por terem sido o grupo que originou dois membros para o Quicksilver Messenger Sevice, mas seus singles, especialmente “Don’t Shoot Me Down” e “Ain’t No Miracle Worker” mostram que eles merecem um lugar de destaque na História do punk de garagem sessentista.

Duas bandas de San Jose que, infelizmente, não conseguiram alcançar o sucesso de nível nacional, foram o Count Five (considerado um dos melhores clones dos Yardbirds da época), com o seu rústico punk rock “Psychotic Reaction” (conduzido por um memorável riff de guitarra) e um bom álbum; e o Syndicate Of Sound, com o seu frenético folk-rock “Hey Little Girl” (regravado pelos Dead Boys na década de 1970). Ambas pareciam ter a aparência e o talento para se tornarem potentes forças do punk rock em nível nacional, mas, tristemente, não tiveram a chance de expor o seu trabalho para muito além das suas fronteiras.

Julgando pelas gravações, San Jose apresentava uma cena divertida, repleta de dinâmicas e excelentes bandas. Ouvindo todo esse material produzido nessa cidade durante aquela época, é fácil saber que os adolescentes locais tinham magníficas opções de clubes para assistir ao vivo algumas das melhores bandas do país. É imperativo que surja alguma coletânea trazendo o melhor do rock de garagem produzido em San Jose durante a década de 1960.

A área da Baía de San Francisco possuía outras localidades quentíssimas em termos de som, nas cercanias de San Jose. Em Sacramento havia o Oxford Circle, cuja “Foolish Woman” é considerada um clássico do rock de garagem dos sessenta. O baterista Paul Whale acabaria no Blue Cheer. The New Breed apresentou um bom potencial para o sucesso com canções como “Green Eyed Woman” e "Want Ad Reader”, mas não passou disso.

A Baía Leste tinha, é claro, os Golliwogs, que, mais tarde, mudariam de nome para Creedence Clearwater Revival e colecionariam uma fileira de sucessos. Seus primeiros trabalhos tinham influência de Beatles e foram compilados em um álbum lançado pela gravadora Fantasy. Trata-se de um bom material. Em 1965, The Harbinger Complex começou suas atividades em estúdio e nos palcos. Mais tarde eles se tornariam regulares em clubes, mas não puderam se expandir para além disso. Suas gravações, entretanto, resistiram ao teste do tempo. Outros grupos que tiveram o seu momento de rápido estrelato foram The Daily Flash, The Mystery Trend e The Mojo Men.