quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

LOS ANGELES


Embora cada canto dos States tivesse os fanáticos seguidores das bandas de garagem, Los Angeles parecia ser a cidade mais próspera em termos de bandas punks. A cidade tinha uma vibrante cena, abastecida por uma mídia constante, um vasto número de clubes e dezenas de selos independentes. Havia, literalmente, centenas de bandas na região de Los Angeles, fazendo gravações, aparecendo na mídia, tendo participações em filmes exibidos nos drive-ins e vivendo uma vida de astros. É claro, poucos grupos expandiram sua influência para além das fronteiras da cidade, mas a maioria deixou centenas de vinis promocionais para a posteridade, para todos aqueles que estavam fora dos limites de Los Angeles soubessem posteriormente o que estavam perdendo. Há uma coletânea da gravadora A.I.P. que mostra muito bem a evolução do rock de garagem de Los Angeles nos Anos 1960, que vai do punk dançante de inclinações R&B, passando pelo punk adolescente e chegando ao punk flower power.

Embora muitos aficionados não concordem que os Byrds e o Love fossem parte da cena, eles foram muito importantes. Os Byrds praticamente inventaram o folk-rock e instantaneamente se tornaram uma influência crucial – tão importantes quanto Rolling Stones ou Pretty Things – para todas as jovens bandas punks. Ouvindo as gravações dos primeiros tempos da banda (quando eles ainda se chamavam Preflight e gravavam pela Together Records) podemos perceber que os Byrds eram também uma boa banda de garagem (especialmente em gravações como “You Movin’”), mas essa qualidade foi perdida embaixo da produção sofisticada de Terry Melcher. Os Byrds também influenciaram as bandas punk a se voltarem para a psicodelia quando lançaram seus dois clássicos, “5D” e “Eight Miles High”. O Love alcançou um sucesso em menor escala, mas parecia que a maioria das pessoas que comprava os seus discos também era formada por integrantes de outras bandas de garagem, porque há uma profusão de covers de canções do Love feitas por contemporâneos. Assim como os Byrds, o Love também esteve na linha de frente das vertentes folk-punk e punk psicodélico. Mas o Love passava longe da suavidade dos Byrds, devido ao fascínio que Arthur Lee possuía pelo estilo de Mick Jagger.

É importante lembrar que Los Angeles produziu também três das mais matadoras bandas punks dos Anos 1960 e que também chegaram a experimentar um limitado sucesso de nível nacional. Essas bandas eram The Music Machine, The Standells e The Seeds.

O Music Machine era uma banda bastante peculiar, com muita personalidade. Todos os seus integrantes usavam “uniformes” da cor preta e seus cabelos eram cortados em forma de concha virada para baixo. A “marca registrada” da banda eram as indefectíveis luvas pretas de couro. Isso dava para pessoas como Dick Clark assunto para falar durante as entrevistas em seu programa de TV American Bandstand. Assim como no vinil, a banda era magnífica quando executava ao vivo suas canções e até os covers. Sua sonoridade apresentava o frenético “diálogo” entre a guitarra e os teclados. O material original, que era composto pelo guitarrista/vocalista Sean Bonniwell, era rústico e agressivo. Algumas gravações, como “People In Me”, “Wrong”, “Come On In” e “Double Yellow Line” eram realmente maravilhosas, mas o grande clássico “Talk Talk” era insuperável em termos de ferocidade punk. Sean parecia sempre manter a sua voz sob controle todas as vezes que ele rosnava cada palavra da letra. Poucas gravações podem se equiparar à intensidade e à entrega desta pepita. O que evita que o primeiro LP da banda seja considerado uma perfeição talvez seja o fato de que eles tenham escolhido covers que, comparadas às originais, perdem feio. Se o álbum tivesse sido formado apenas por material original da banda, poderíamos estar aqui falando de um clássico inestimável do melhor rock de garagem já produzido em qualquer época. Mesmo assim, trata-se de um excelente álbum. O segundo LP não é tão bom, mas apresenta algumas faixas matadoras, e os singles que não saíram nos LPs também são “absolutamente positivamente” indispensáveis.

Os Standells começaram cedo. Eles tocavam um rock dançante influenciado por R&B já no período 1963/1964, gravando material de estúdio e fazendo aparições memoráveis em filmes e em programas de TV (como The Munsters). Mas foi em 1965, quando eles se aliaram ao produtor Ed Cobb, que as coisas começaram a ficar em seus devidos lugares. Cobb compôs “Dirty Water” para o grupo e, conforme o tempo foi passando, o resto é História. Durante o Verão de 1966, era impossível ouvir o rádio por uma hora e não ouvir “Dirty Water” pelo menos uma vez. Ed Cobb deu aos Standells um som mais palatável e encorpou o vocal da banda. E, o mais importante de tudo, ele concedeu aos Standells aquilo que toda banda punk que se preze sempre deve ter – um som saturado de fuzz, cortesia de uma Fuzz Box. Essa pequena invenção era usada mais pelas bandas punks do que por qualquer outro tipo de banda. O guitarrista deveria plugar a sua guitarra nessa caixinha mágica que, por sua vez, era conectada ao amplificador. Quando a caixa estava desligada, o som parecia normal, mas, quando era ligada (com uma pisada do guitarrista no botão “on”) a guitarra adquiria um som distorcido, um som totalmente “fuzzy”, que era a base de todos os riffs de guitarra no rock de garagem. A maior parte dos petardos que acabaram se tornando clássicos do rock de garagem sessentista apresenta guitarras que transbordam efeitos de fuzz. Quando os Standells adotaram a Fuzz Box e deixaram para trás o seu rockinho dançante, eles asseguraram o seu lugar na História do punk e “Dirty Water” se tornou um dos clássicos dessa Era.

Depois do sucesso de “Dirty Water”, eles tiveram poucas outras incursões bem sucedidas, como “Sometimes Good Guys Don’t Wear White” e o arrogante clássico menor “Why Pick On Me” e até excursionaram com os Rolling Stones. Mas eles jogaram fora toda a sua credibilidade quando lançaram The Hot Ones, uma inacreditável coletânea de hits do momento. Muitos consideravam os Standells como sendo os Rolling Stones de Los Angeles, e, por isso mesmo, ouvi-los interpretando sucessos como “Eleanor Rigby” era como receber uma facada nas costas.

A História provou que esse foi o maior erro da banda. Eles lançaram outros sólidos singles punks depois disso, como “Try” e “Barracuda”, mas nenhum desses foi bem sucedido comercialmente. Para quem não quiser se aprofundar na discografia, a coletânea The Best Of The Standells (Rhino) é essencial em toda coleção de punk de garagem que se preze.

Os Seeds eram tão básicos que a maioria das pessoas faziam uma idéia errada deles, pensando que eram tolinhos. Apesar da música de todas as suas canções parecer soar como sendo sempre a mesma, tal fato parecia não apagar o estilo e a classe que os Seeds realmente possuíam. O vocalista Sky Saxon se tornou uma figura largamente cultuada. Embora ele ande um pouco sumido, as pessoas continuam até hoje contando histórias das mais lisérgicas sobre essa lenda das garagens. Uma dessas histórias, por exemplo, dá conta que Sky teria se convertido a uma religião que adorava cachorros na década de 1970 (realmente, há um EP raríssimo creditado a um certo “Sunlight” lançado em 1976 e que versa sobre adoração religiosa a cães). Se isso for verdade, parece que a ressaca do Flower Power foi realmente longa.

Surpreendentemente, os álbuns dos Seeds (todos da Gravadora GNP) nunca saíram de catálogo, o que torna possível saber por que Sky Saxon se tornou uma lenda e o que ocasionou o declínio dos Seeds. O primeiro LP saiu no começo de 1966 – e foi um começo explosivo. A formação com órgão Vox, guitarra, bateria e vocal (formação esta adotada pelos Doors, cujo vocalista Jim Morrison era um ávido fã dos Seeds) deu à banda uma sonoridade que rapidamente a afastou da convencional formação de duas guitarras, baixo, bateria e vocal. Todas as faixas pareciam ter o mesmo fraseado de teclados e o mesmo solo de guitarra, o que dava à sua música um certo charme primitivo.

Os arranjos eram evidentemente secundários. Os Seeds sobreviviam através de seus hinos de ira punk adolescente, como “Can’t Seem To Make You Mine” e o óbvio clássico “Pushin’ Too Hard”, ambos cantados pela voz rascante e animalística de Sky Saxon. Ele rosnava e murmurava tanto que, na maior parte do tempo, parecia mais um animal ferido do que um vocalista de uma banda de rock’n’roll. Sua atitude desleixada apenas somava à mística dos Seeds. Eles também pouco se importavam se “Pushin’ Too Hard” era ou não era um sucesso (a canção alcançou a posição de nº 36 na parada da Billboard).

O segundo LP, Web Of Sound, também é muito importante, mas, depois disso, as coisas pareceram começar a desmoronar. Sky começou a ficar obcecado pelo Flower Power, e o resultado foi o álbum Future, o mais psicodélico dos álbuns dos Seeds. Saxon adicionou metais, cordas e cítaras ao riff característico e patenteado dos Seeds. Depois disso, ele tentou capitalizar em cima do “blues branco” que estava na moda. O resultado é que A Full Spoon Of Seedy Blues soa como uma das maiores imposturas que alguém já ouviu. Trata-se de um disco insípido. Mas o fim da banda foi digno, pois, antes de encerrar atividades, eles lançaram um forte álbum ao vivo e alguns singles interessantes pela MGM.

As outras bandas de Los Angeles não eram menos impressionantes. Poderíamos citar The Sons Of Adam, The Lyrics e The Bees como belas obscuridades que poderiam muito bem se equiparar ao triunvirato Music Machine/Standells/Seeds. A banda The Sons Of Adam lançou vários singles maravilhosos pesadamente inspirados na sonoridade dos Yardbirds. Eles também lançaram uma excelente versão de “Tomorrow’s Gonna Be Another Day”, original dos Monkees. Os Sons Of Adam evoluíram para a igualmente importante banda chamada The Other Half, que se tornou regular no circuito de shows em San Francisco. Os Lyrics eram igualmente sensacionais, mas, sendo contratados da gravadora GNP, não receberam tanta atenção quanto os seus colegas de gravadora, os Seeds. Mesmo assim, durante o período que vai de 1965 a 1968, eles lançaram uma leva de compactos que rivaliza com o melhor do rock de garagem produzido na cidade nesse período. Eles provavelmente receberam maior atenção quando surgiram com a paulada sonora transbordante de fuzz chamada “So What”, um excitante número de folk punk.

Os Leaves entraram para a História por terem perpetrado a versão mais bem sucedida comercialmente de “Hey Joe”, um standard garageiro dos sixties. Eles também alcançaram um grande sucesso local com o intenso folk punk “Too Many People”. Os Leaves pareceram nunca ter alcançado um ideal de influência musical, pois havia uma certa indecisão se eles se pareciam mais com os Byrds ou com os Rolling Stones. Apesar da confusão e de nunca mais terem equiparado o sucesso comercial que sua versão de “Hey Joe” alcançou em 1966, eles ainda gravaram excelentes números punks que seguraram a onda muito bem. O material gravado pelos Leaves também é importantíssimo em qualquer coleção de rock de garagem.

The Rain era produzido por Brian Ross, que também produziu a Music Machine, e o som dessa banda era pesadamente inspirado no R&B inglês, embora eles empregassem uma certa ferocidade frenética ao seu som. “ESP” foi a sua tentativa de encontrar o sucesso e se parecia muito com “LSD”, dos Pretty Things. Seria muito interessante se o material gravado por essa banda viesse à luz em alguma coletânea. Possivelmente deve haver várias outras gravações do The Rain esperando para ser descobertas.

Os Electric Prunes eram oriundos de Seattle, mas eles se estabeleceram em Los Angeles. Eles lançaram singles maravilhosos e álbuns que se tornaram clássicos, especialmente os dois primeiros, com destaque para Underground, verdadeira pepita de psicodelia garageira. Seu maior sucesso foi o inesquecível clássico “I Had Too Much To Dream Last Night”, título também do seu primeiro e excelente LP.

Havia também uma boa leva de bons grupos punks Mexicanos-Americanos que lançaram magníficas gravações no estilo R&B selvagem. Os Premiers alcançaram o sucesso com “Farmer John”, Cannibal & The Headhunters com “Land Of 1000 Dances” e The Midnighters com “Whittier Blvd”. Essas gravações passam a impressão de que foram feitas em festas regadas a muita bebedeira. Muitas delas merecem uma reedição.

Outras preciosidades do punk de Los Angeles foram “Makin’ Deals” (The Satans), “One Of These Days” (The Roosers), “Two Souls” (The Grim Reaper), “Invisible People” (Hamilton Streetcar), “Be A Caveman” (The Avengers), “Race With The Wind” (The Robbs), “Voices Green And Purple” (The Bees), “You Must Be A Witch” (The Lollipop Shoppe), “Don’t Do It Some More” (The Cindermen), “Midnight To Six” (The Jagged Edge) e literalmente centenas de outras.

SUDOESTE


O estado do Arizona tinha uma cena vibrante. Em Tucson, os Quinstrels, que, mais tarde, mudariam de nome para The Intruders e The Dearly Beloved, lançaram boas gravações do mais bruto rock de garagem. Eles se mudaram para Los Angeles para gravar um álbum, ocasião em que o vocalista da banda morreu em um acidente de automóvel. O mais incrível grupo de Tucson, entretanto, foi The Grodes (que também lançou ótimas gravações no mercado sob o nome de The Tongues Of Truth). Eles tinham uma forte base punk com vocais controlados e um material sólido. De fato, foi Manny Fraser, integrante dos Grodes, quem compôs o clássico “Let’s Talk About Girls”. Eles gravaram essa canção somo The Tongues Of Truth, mas a canção se tornou mais conhecida quando foi regravada pela Chocolate Watch Band.

A cidade de Phoenix tinha uma cena muito maior e muito mais ativa devido ao fato de que vários e importantes estúdios de gravação se localizavam nessa cidade. Phoenix não foi apenas o reduto original de Alice Cooper, Nazz e The Tubes, mas também de Superfine Dandelion, The Velairs e da fantástica banda Phil & The Frantics (que tinha uma sonoridade similar à dos britânicos Zombies).

O Novo México também tinha uma cena punk bem agitada. The Plague, banda originária de Albuquerque, perpetrou uma extraordinária gema chamada “Go Away”. The Fe-Fi-Four Plus 2 (que nome maravilhoso para se batizar uma banda!) tinha o clássico “I Wanna Come Back From The World Of LSD”; e o The Cellar Dwellers (outro grande nome para uma banda de rock) permaneceu na obscuridade, a despeito do brilhantismo de “Working Man”. Enfim, há uma infinidade de ótimas bandas punks sessentistas do Novo México que merecem lugar em alguma compilação do tipo Pebbles ou Nuggets.

TEXAS

A cena punk texana dos Anos 1960 tem excitado colecionadores de raridades psicodélicas ao longo das décadas (com toda a razão) e, ao lado de Los Angeles, essa região produziu o mais amplo número de grupos de alto padrão. Os sons adolescentes que emergiam das garagens texanas eram os mais alucinados e alienígenas que qualquer um pudesse imaginar. A mídia estadunidense focava a sua atenção na Revolução Psicodélica que ocorria em San Francisco, mas, para muitos, a mais demente psicodelia do mundo nascia em terras texanas. A explicação para isso poderia ser devido ao peiote ou aos cogumelos consumidos em larga escala por certa parcela da juventude texana, mas, sem se importar com as razões, o punk sessentista texano era, realmente, muito louco e gerou um punhado de gravações matadoras.

A mais infame de todas as bandas punks do Texas foi, sem dúvida, The Thirteenth Floor Elevartors. Liderados pelo talentoso Roky Erickson, os Elevators tinham um som inspirado em sua maior parte na sonoridade dos Rolling Stones, mas conseguiam soar muito mais selvagens que seus ídolos britânicos, muito disso devido ao jug elétrico de Tommy Hall. Lá pelo final de 1966, quando os Elevators começaram a ressoar os seus sons psicodélicos, a maioria dos grupos estava fazendo a transição do punk de garagem para a psicodelia. Como a melhor de todas, a banda conservou a sua rusticidade punk adolescente sem deixar de experimentar a lisergia sonora que estava impregnando os ares nessa época. Toda a discografia dos Elevators é importantíssima. Há também uma gravação ao vivo feita no Avalon Ballroom, em San Francisco, que é muito fácil de ser baixada na internet e que captura a feroz insanidade da banda em suas apresentações ao vivo. Os Elevators eram o orgulho do underground de Austin e Houston.

The Moving Sidewalks são outro grupo altamente apreciável por colecionadores, ainda que a maior parte de sua música possa ser considerada psicodelia progressiva ao invés de punk de garagem. Apesar disso, o primeiro single da banda, “99th Floor”, é uma obra-prima garageira além da imaginação. Essa canção possui uma letra bizarra, um forte riff com fuzz, uma batida austera e uma melodia cativante. Infelizmente, a banda não continuou trilhando esse caminho musical. O guitarrista Billy Gibbons mais tarde formou o ZZ Top e Jimi Hendrix deu o seu endosso à banda, duas razões pelas quais as pessoas continuam a considerar os Moving Sidewalks. Eles foram magníficos durante um single e apenas bons durante o resto de seu legado musical.

Uma banda muito mais versátil foi Mouse & The Traps, que gravou numerosos compactos. Eles são mais lembrados pela inconfundível habilidade do vocalista Ronnie “Mouse” Weiss em imitar Bob Dylan no maravilhoso clássico “A Public Execution”. Mas eles também rockavam pesado. A compilação dessa banda lançada pelo selo Eva é uma das melhores reedições já lançadas e mostram a versatilidade do grupo.

Os Elevators, os Moving Sidewalks e Mouse & The Traps são consideradas as três bandas principais pelos colecionadores de vinil, mas havia outras ótimas bandas texanas que chegaram até a alcançar as paradas de sucesso. Sam The Sham And The Pharaohs, por exemplo, é uma banda que conseguiu emplacar alguns sucessos em nível nacional. Contudo, debaixo das insanas letras de “Wooly Bully”, “Ju Ju Hand”, “Ring Dang Doo” e “Little Red Riding Hood” havia um excitante rock. A música de Sam era repleta de referências da década de 1950 – especialmente pelo uso de saxofone e de emulações de R&B – mas aquela batida pulsante, aquele órgão Vox, e aqueles vocais tensos eram puro punk adolescente. Sam The Sham tinha um excelente senso de humor que funcionava bem no vinil e nas apresentações ao vivo.

Outra grande banda saída do Texas foi The Sir Douglas Quintet. O produtor Harvey Meaux quis fazer parte da Invasão Britânica. Por isso, ele coagiu Dough Sahm a liderar The Sir Douglas Quintet. Bem, Meaux perpetrou alguns poucos sucessos comerciais, mas, com a voz arrastada de Dough Sahm e a influência dos músicos mexicanos que integravam a banda, ele passou longe de parecer britânico. Mas era uma banda diferenciada, e com “She’s About A Mover” e “The Rains Came”, o grupo alcançou certa notoriedade. Muito pouco do material da banda pode ser classificado como punk, pois eles eram igualmente adeptos do R&B e do country. Mas, quando eles tocavam rock, eles realmente detonavam. The Sir Douglas Quintet teve muita sorte em contar com o talento do tecladista Augie Myer. O jeito com que ele tocava o seu órgão Vox é copiado até os dias de hoje. Um verdadeiro gênio da simplicidade.

Um dos grupos que Myer inspirou foi The Five Americans. Apesar do nome meia-boca, essa banda de Dallas era punk até a medula. Eles tinham a inclinação para fazer melodias contagiantes. Portanto, uma porção dos seus mais de vinte singles beliscou as paradas. Basta lembrar de jóias como “I See The Light”, “Western Union” e “Zip Code”. Os Five Americans provaram que uma banda poderia ser pop sem deixar sua alma garageira de lado. Mas, voltando a falar das bandas que não alcançaram o sucesso, Kenny & The Kasuals era uma atração bastante popular no circuito de clubes, e o seu álbum ao vivo “falsificado” pode comprovar o motivo. Eles perpetraram excelentes versões de canções do rock britânico. Seus singles mostram a sua lenta guinada em direção ao punk psicodélico, especialmente a incrível “Journey To Tyme”.

Havia outras centenas de grupos texanos que merecem o seu lugar de destaque em qualquer antologia. É possível escrever um livro inteiro sobre o punk texano sessentista, mas podemos citar uma fileira de singles clássicos imprescindíveis. Eis aqui apenas alguns deles: “I Don’t Believe It”, dos Things (grupo de El Paso, com uma incendiária guitarra com fuzz e brilhante órgão Farfisa), “Blue Girl”, dos Bad Roads (rock acelerado), “The Train Kept A Rollin’”, do Scott McKay Quintet (grupo com uma sonoridade semelhante à dos Yardbirds da fase Jimmy Page), “Bad Girl” e “I Need You”, dos Zakary Thaks (duas pauladas punks, embora a maior parte do repertório da banda seja essencialmente melódica), “Sorrow In C Major”, do Knights Bridge Quintet (bizarra e hipnótica melodia conduzida pela guitarra com fuzz e um solo no estilo raga), “Come With Me”, dos Exotics (brilhante banda punk), “I’m In Pittsburgh” e “It’s Raining”, dos Outcasts (banda que apresentava um som meio inspirado nos Stones, tendo uma selvagem harmônica de fundo) e “Time Machine” de Satori (perfeita mistura entre Elevators e Seeds). E essa é apenas uma pequena fração de toda a boa música produzida no Texas durante os Anos 1960.

CHICAGO

O maior nome de Chicago era The Shadows Of Knight. Esses cinco adolescentes imberbes incrementavam o seu R&B com uma inspirada seção rítmica. Pode ser que o líder e vocalista Jim Sohns alegue que tenha aprendido com os originais, mas a sua atitude e sua postura eram diretamente ligadas à mesma escola britânica do blues outrora freqüentada pela trinca Mick Jagger / Phil May / Eric Burdon.

The Shadows Of Knight era uma das bandas favoritas nos clubes adolescentes de Chicago quando o produtor e proprietário da gravadora Dunwich os conduziu ao interior do estúdio para que eles gravassem uma versão de “Gloria” (Them), uma canção que havia sido proibida em muitos lugares dos Estados Unidos. O resultado final se constituiu em uma experiência mágica, jamais equiparada pelo grupo novamente em termos comerciais. A canção era perfeita para a voz rascante de Sohns. Em pouco tempo, o single se tornou um sucesso esmagador em Chicago e rapidamente se espalhou pelo resto do país.

O primeiro álbum foi uma pancada de blues adolescente, com simples, porém eficientes solos de guitarra. O LP seguinte, Back Door Men, era mais diversificado, pois a banda tentou números instrumentais (“The Behemoth”), pop (“Tomorrow’s Gonna Be Another Day”) e folk-rock (“Hey Joe”), ao lado de sua bastardização do blues. “Bad Little Woman” era um excelente número, mas não alcançou a mesma repercussão de “Gloria”, e não pode fazer muita coisa pelo álbum. Mudanças constantes de membros do grupo resultaram no fato de que Sohns passou a ser o único dos membros originais quando saiu o terceiro LP. Um single, “Shake”, alcançou razoável repercussão, mas o flerte com o bubblegum tentado pelos novos Shadows pareceu tímido comparado ao que eles já tinham feito em sua faceta bluesística. Sohns manteve o grupo trabalhando ativamente até o final da década de 1970, quando ele se tornou empresário do Skafish. Pelo menos os Shadows tiveram seus bons momentos com o sucesso do single “Gloria”.

The Del-Vetts eram igualmente brilhantes e por várias vezes provaram ser até superiores aos Sahdows Of Knight em termos de ferocidade punk, se julgarmos pela qualidade de seus singles. “The Last Time Around” parece ser uma das melhores faixas punks já registradas em vinil. Por razões misteriosas, o single não obteve sucesso comercial. The Del-Vetts tiveram algum sucesso regionalmente localizado e eram bastante populares nos arredores, mas o fracasso comercial do single botou um ponto final na festa.

Um dos problemas com as bandas de Chicago era a preocupação exacerbada com o sucesso. Bandas como Buckinghams, Cryan Shames e American Breed eram muito boas, mas o som superproduzido de suas gravações em estúdio eliminava o potencial.

Havia muitas outras boas bandas punks. The Naves possuíam alguns bons singles de folk-punk. Eles eram uma espécie de clone rudimentar dos Byrds. The New Colony Six lançou dois fortes álbuns punks adolescentes antes de se tornarem um grupo pop de MOR. The Mauds tocavam soul de branco, e, enquanto seu LP parecia não decolar, suas apresentações ao vivo levavam platéias à loucura. The Flock e Little Boy Blues lançaram excelentes singles no início de suas carreiras, mas se tornaram levemente pretensiosos quando começaram a lançar seus álbuns.

DETROIT

Michigan era outra mina de ouro repleta de talentos. A área de Detroit possuía bons estúdios, clubes bem freqüentados e gravadoras independentes muito bem organizadas, tais como a Hideout e a Square. Os adolescentes locais simplesmente devoravam o soul branco produzido pelas bandas punks. E várias bandas alcançaram um certo sucesso. The Fugitives lançaram um decente disco gravado ao vivo que soava como se fosse uma reedição. The Nationals eram, possivelmente mais adeptos do blue-eyed soul do que os Young Rascals, e eles fizeram dessa vertente um bom negócio. Seu único álbum não chega perto da intensidade dos seus compactos de vinil que, hoje em dia, são extremamente raros. Cherry Slush foi uma das primeiras bandas de Dick Wagner (mais tarde, no Frost e parceiro musical de Lou Reed e Alice Cooper). Scott Richard Case, que mais tarde se tornaria o mais metaleiro SRC, era uma boa banda e Case era um cantor que provavelmente teria ido muito longe. Terry Knight também lançou um par de excelentes álbuns. Seu grupo, o The Pack, acabaria se transformando no Grand Funk Railroad, e Terry largaria os vocais para ser apenas o empresário da banda. The Wanted fez uma boa versão punk de “In The Midnight Hour”. Outros singles como “East Side Story” e “Persecution Smith” também vieram à luz pelas mãos dessa banda, que contava com Bob Seger em sua formação.

Outras gravações interessantes podem ser citadas, tais como “Farmer John”, dos Tidal Waves, “Love’s Gone Bad”, dos Underdogs, “Where You Gonna Go”, dos Unrelated Segments, “Who Do You Love”, dos Woolies, e os dois primeiros álbuns dos Amboy Dukes. Sim, até mesmo Ted Nugent já foi um punk.

Nessa época, os maiores astros de Detroit eram Mitch Ryder & The Detroit Wheels, que realmente pegavam pesado com clássicos como “Good Golly Miss Molly”, “Jenny Take A Ride” e “Sock It To Me Baby”. Seguramente ele ouviu os originais, mas o seu grito era mais punk de branco do que soul de branco e ele acabou deixando para a posteridade uma porção de memoráveis gravações.

O que pode ser considerada a melhor canção punk já saída de Detroit é regularmente citada em artigos sobre o Texas. Confuso? Bem, “96 Tears”, com o seu repetitivo riff de teclado a cargo de Augie Myer e vocais monótonos a cargo de ? & The Mysteryans, foi composta enquanto os mexicanos americanos ainda continuavam vivendo no Texas. Por alguma razão desconhecida, eles se mudaram para Detroit, regravaram a canção pela gravadora Cameo e fizeram dessa gravação um enorme sucesso. Alguns poucos sucessos se sucederam, todos parecendo versões modificadas de “96 Tears”. Seus dois álbuns são importantes. O brilhantismo da banda residia na sua simplicidade (assim como acontecia com os Seeds). Iggy Pop os considera como uma influência crucial em sua música.

MINNEAPOLIS

A região teve algumas das mais selvagens manifestações do punk adolescente de garagem. The Trashmen apareceram com a sua bizarra “Surfin’ Bird”, que se tornou um sucesso de nível nacional. O mesmo aconteceu com a canção “Liar Liar”, dos Castaways. Mas havia muitos outros singles explosivos eclodindo nessa região. Um bom exemplo é “Run Run Run”, dos Gestures, uma mistura de Merseybeat com surf music. Os dois primeiros álbuns do The Litter (banda que fazia um rock meio grunge de inclinação britânica) também são essenciais. T. C. Atlantic também lançou um ótimo material. Havia ainda uma infinidade de outras bandas realmente muito boas, muitas das quais gravaram por selos locais, como Garrett e Soma.

OHIO

Assim como acontecia em Chicago, os punks de Ohio pareciam navegar em águas mais pop, mas eles faziam isso com uma proximidade maior aos grupos ingleses. Eles não enchiam as suas canções com cordas e metais, eles simplesmente compunham melodias claras e coesas que tinham como pano de fundo uma grande e poderosa batida. O melhor exemplo disso é a banda The Choir, de Cleveland, cujo single “It’s Cold Outside” é considerado uma das melhores canções no estilo Merseybeat já compostas fora do Reino Unido. The McCoys, apresentando o adolescente Rick Derringer, eram outro grupo extremamente melódico. Eles emplacaram grandes hits como “Hang On Sloopy” (clássico do punk de garagem) e “Fever” e fizeram dois excelentes álbuns, antes de tornarem o seu som mais “sério”. The Outsiders era uma banda ligada à gravadora Capitol, por onde lançaram singles como “Time Won’t Let Me” (um dos maiores sucessos de 1966, que até ganhou versão em português, a cargo da banda carioca Os Canibais) e “Respectable”. The Music Explosion é outra banda que primava pelas boas melodias, e emplacou o grande sucesso “Little Bit O’Soul”, que acabaria se tornando clássica e que, mais tarde, ganharia uma versão feita pelos Ramones. Posteriormente, a banda lançou excelentes singles no estilo bubblegum, mas “Little Bit O’Soul” seria realmente o seu único grande sucesso (eles alcançariam um sucesso moderado com “Sunshine Games” em agosto de 1967). Como alternativa aos punks de inclinação pop, bandas mais obscuras, como The Alarm Clock e The Rats ofereciam uma fração de tosqueira raivosa em seua singles.